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Mais brasileiros procuram apoio para deixar Portugal: o que está por trás do aumento de 52% nos pedidos de retorno?

Brasileiros em Portugal
20 de set.
5 min de leitura

Aumenta o número de brasileiros que procuram apoio para regressar de Portugal


Programa de retorno voluntário registou crescimento de 52% na média mensal de pedidos de brasileiros nos primeiros sete meses de 2026


O número de brasileiros que procuram apoio para deixar Portugal e regressar ao Brasil aumentou significativamente em 2026. Dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM) indicam que, nos primeiros sete meses deste ano, foram registados 470 pedidos de apoio de cidadãos brasileiros, contra uma média mensal inferior à verificada em 2025.


O crescimento chama a atenção porque os brasileiros constituem atualmente a maior comunidade estrangeira residente em Portugal. Segundo os dados divulgados pela OIM e citados pela imprensa, os cidadãos brasileiros representam cerca de 30% da população imigrante no país, mas correspondem a aproximadamente 80% dos pedidos feitos através do programa de retorno voluntário.


Pedidos aumentaram mais de metade


Em 2025, a OIM registou uma média de aproximadamente 44 pedidos mensais de brasileiros através do programa. Em 2026, até julho, essa média subiu para cerca de 67 pedidos por mês, o que representa um aumento de 52%.


O número acumulado nos primeiros sete meses deste ano também já ultrapassou o total de inscrições registadas durante todo o ano de 2024. Naquele ano, 432 brasileiros procuraram o programa; até julho de 2026, já eram 470.


Os números, entretanto, precisam de ser interpretados com algum cuidado. Um pedido de apoio não significa necessariamente que a pessoa tenha regressado ao Brasil. De acordo com os dados divulgados sobre o programa, uma parte significativa dos processos não chega à etapa final.


Entre os motivos estão as próprias condições exigidas para acesso ao apoio, incluindo a necessidade de demonstrar uma situação de vulnerabilidade económica e a impossibilidade de financiar o regresso por meios próprios.


Como funciona o programa de retorno voluntário


O mecanismo faz parte de uma política de retorno voluntário e reintegração destinada a cidadãos de países terceiros que não pretendam continuar a viver em Portugal.


O programa é desenvolvido com participação da Organização Internacional para as Migrações e prevê acompanhamento antes da viagem, assistência durante o percurso e apoio relacionado com a reintegração no país de origem.


Segundo o FAMI 2030, o programa português pode incluir pagamento da viagem de regresso, apoio financeiro individual, assistência médica antes da partida e durante a viagem, apoio em trânsito e à chegada e medidas de reintegração.


Em junho de 2026, o FAMI 2030 abriu um novo aviso destinado precisamente a apoiar regressos voluntários e processos de reintegração nos países de origem. A iniciativa prevê financiamento para ações de informação, aconselhamento e acompanhamento das pessoas que optem pelo retorno.


Brasileiros são maioria entre os pedidos


A forte presença brasileira no programa acompanha o peso demográfico da comunidade no país.

Portugal tornou-se, nos últimos anos, um dos principais destinos para brasileiros que procuram viver, trabalhar ou estudar na Europa. A proximidade linguística, os vínculos históricos e culturais e a possibilidade de circulação e residência através de diferentes mecanismos legais ajudaram a consolidar essa presença.

Ao mesmo tempo, o crescimento da comunidade significa que as dificuldades enfrentadas por parte dos imigrantes também aparecem em números absolutos maiores.


Os motivos que levam alguém a considerar o regresso podem ser muito diferentes. Há casos relacionados com dificuldades económicas, emprego, habitação, documentação, adaptação familiar ou simplesmente uma decisão pessoal de reconstruir a vida no país de origem.


Por isso, os dados do programa não permitem concluir que todos os brasileiros que pedem apoio estejam insatisfeitos com Portugal ou que exista um movimento generalizado de saída do país.


Custo de vida e habitação pesam nas decisões


A questão económica é um dos fatores que pode influenciar a permanência dos imigrantes.

O aumento dos custos de habitação, sobretudo nos principais centros urbanos, tornou a organização financeira mais difícil para muitas famílias. Para quem chega sem uma rede familiar consolidada ou com rendimentos mais baixos, despesas com renda, alimentação, transporte e serviços podem representar uma parcela significativa do orçamento mensal.


Para alguns brasileiros, a expectativa construída antes da mudança para Portugal pode não corresponder à realidade encontrada depois da chegada.


Também existem situações em que a pessoa consegue emprego, mas percebe que o rendimento disponível não é suficiente para manter o padrão de vida inicialmente esperado.


Regresso não significa necessariamente fracasso


A decisão de deixar Portugal pode assumir diferentes significados.

Para algumas pessoas, voltar ao Brasil pode representar uma mudança de estratégia profissional ou familiar. Para outras, pode ser uma consequência de dificuldades económicas ou administrativas. Há ainda quem decida regressar depois de concluir um período específico de estudos ou trabalho.


O próprio conceito de retorno voluntário utilizado pelas autoridades portuguesas está associado à ideia de uma saída realizada de forma informada, segura e acompanhada.


O FAMI 2030 destaca que o objetivo dos programas de retorno não é apenas organizar a viagem, mas também proporcionar condições para uma reintegração mais sustentável no país de origem, especialmente para pessoas em situação de vulnerabilidade.


Há também consequências para quem utiliza o programa


Uma das questões que deve ser considerada por quem avalia essa possibilidade são as condições associadas ao retorno.


De acordo com informações divulgadas sobre o programa, quem concretiza o retorno através deste mecanismo fica sujeito a um período de três anos sem poder entrar em Portugal ou nos restantes países do Espaço Schengen.


Essa condição pode pesar na decisão de algumas pessoas, especialmente para quem ainda considera a possibilidade de permanecer na Europa no futuro.


Por esse motivo, o processo envolve aconselhamento e avaliação individual antes da concretização do retorno.


Um retrato de uma comunidade em transformação


O aumento dos pedidos de retorno é um dado relevante, mas deve ser observado juntamente com a dimensão da comunidade brasileira que continua a viver em Portugal.


Os números mostram que existe uma parcela de brasileiros que está a reconsiderar a permanência no país, mas não permitem afirmar, isoladamente, que a maioria dos brasileiros esteja a abandonar Portugal.


O fenómeno pode ser entendido como parte de uma fase de transformação da imigração brasileira. Depois de anos de crescimento expressivo da comunidade, começam a surgir também movimentos de retorno, reorganização familiar e procura por novas alternativas dentro ou fora da Europa.


Para quem pretende emigrar, os dados reforçam a importância de avaliar previamente fatores como custo de vida, mercado de trabalho, habitação, documentação e rede de apoio.


Para quem já vive em Portugal, mostram igualmente que a decisão de permanecer ou regressar ao Brasil envolve muito mais do que uma questão profissional: trata-se de uma escolha que pode envolver família, estabilidade financeira, projetos pessoais e expectativas sobre o futuro.


Portugal continua a ser destino importante


Apesar do aumento dos pedidos de retorno, Portugal continua a receber e a acolher uma comunidade brasileira numerosa.


O crescimento simultâneo da comunidade e dos pedidos de retorno mostra que a experiência migratória não é igual para todos. Enquanto alguns brasileiros consolidam carreira, negócios e vida familiar em Portugal, outros encontram dificuldades que os levam a reconsiderar o projeto migratório.


Os números da OIM ajudam, assim, a revelar uma realidade mais complexa: a relação entre brasileiros e Portugal continua forte, mas as decisões sobre permanecer, regressar ao Brasil ou procurar outro caminho estão a tornar-se cada vez mais individuais.

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