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Canadá pode tornar-se o primeiro “membro associado” da UE: entenda o que está em causa

Foto do escritor: Roberto Melo
Roberto Melo
20 de set.
6 min de leitura

Atualizado: 24 de set.




Proposta apresentada por Ursula von der Leyen pretende aproximar o Canadá da União Europeia em áreas como defesa, tecnologia, energia e comércio, mas o novo estatuto ainda não existe formalmente


A União Europeia deu esta semana um passo que poderá alterar a forma como o bloco se relaciona com países que não fazem parte do seu território. Durante o discurso sobre o Estado da União, realizado em Estrasburgo, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, convidou o Canadá a tornar-se o primeiro “membro associado” da UE.


A proposta foi apresentada na presença do primeiro-ministro canadense, Mark Carney, que no dia seguinte manifestou abertura para aprofundar a relação entre o Canadá e os países europeus.


Apesar do impacto político do anúncio, existe uma ressalva importante: o estatuto de “membro associado” não está atualmente previsto nos tratados da União Europeia. Ainda não existe, portanto, um modelo definido sobre quais seriam os direitos, obrigações ou poderes de um eventual país associado.


O que está realmente a ser proposto?


A ideia não significa que o Canadá vá entrar para a União Europeia como um Estado-membro.

A adesão plena à UE implica um processo específico, com requisitos políticos, econômicos e jurídicos e, posteriormente, participação nas instituições e no processo de decisão europeu. Um eventual modelo de associação seria diferente: permitiria uma aproximação muito mais profunda sem transformar o Canadá num dos 27 Estados-membros.


A Comissão Europeia fala atualmente numa “Aliança para o Futuro”, que pretende elevar a relação entre Bruxelas e Ottawa para além do atual acordo comercial.


No discurso de 16 de setembro, von der Leyen apontou áreas como produção industrial, tecnologia, defesa, Ártico, energia, minerais críticos, baterias, inteligência artificial, computação quântica, cibersegurança e segurança econômica.


O primeiro-ministro canadense também defendeu uma cooperação mais estreita em setores estratégicos, incluindo minerais críticos, indústria de defesa, inteligência artificial, energia, espaço e sistemas de pagamentos.


Canadá já tem uma relação próxima com a UE


Embora a proposta de associação seja inédita, a relação entre o Canadá e a União Europeia não começa agora.


Os dois lados já possuem o CETA, o acordo econômico e comercial que estabelece uma ampla estrutura para o comércio bilateral. Segundo a Comissão Europeia, o comércio de mercadorias entre as duas partes aumentou cerca de 75% desde a entrada em vigor provisória do acordo.

A cooperação também avançou no setor da segurança.


Em junho de 2025, UE e Canadá assinaram uma parceria específica para segurança e defesa, abrangendo áreas como segurança marítima e espacial, cibersegurança, mobilidade militar, combate a ameaças híbridas e apoio à Ucrânia.


Em 2026, o Canadá tornou-se ainda o primeiro país não europeu a participar no instrumento SAFE, mecanismo da UE destinado a apoiar investimentos e compras conjuntas na área da defesa.

Ou seja, a proposta de “membro associado” surge depois de uma série de acordos que já vinham aproximando os dois lados.


Por que razão o Canadá?


A aproximação acontece num momento de mudanças nas relações internacionais.


A União Europeia enfrenta a guerra na Ucrânia, tensões comerciais, competição tecnológica e a necessidade de reduzir dependências externas em áreas consideradas estratégicas.


O Canadá, por sua vez, possui grandes reservas de recursos naturais, incluindo minerais considerados importantes para a transição energética e para setores tecnológicos.


A cooperação também pode ganhar importância no Ártico, região que tem adquirido maior relevância econômica e estratégica devido às mudanças climáticas, às rotas marítimas e à presença de recursos naturais.

Para Bruxelas, uma relação mais estreita com Ottawa pode significar acesso a um parceiro estratégico fora do continente europeu que já possui vínculos econômicos, políticos e de segurança com o bloco.


Uma nova forma de organizar alianças?


É aqui que a proposta pode ter consequências que ultrapassam a relação entre Canadá e Europa.

Se um modelo de associação for criado, outros países poderão avaliar a possibilidade de estabelecer relações semelhantes com a UE.


A presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, já mencionou publicamente a possibilidade de países como Austrália e Nova Zelândia acompanharem com interesse este novo formato. A Euronews também relatou que a proposta despertou atenção em outros países parceiros da Europa.


Isso poderia criar uma espécie de círculo de países estreitamente ligados à União Europeia sem necessariamente fazerem parte do bloco.


No entanto, ainda não está definido se esse modelo terá realmente essa dimensão. A própria categoria de “membro associado” precisa de ser juridicamente construída e negociada.


Não é uma nova forma de adesão à UE


Uma das principais dúvidas diz respeito aos direitos que um eventual membro associado teria.

Um país poderia participar em determinados programas europeus? Teria acesso ao mercado único? Poderia participar em decisões da UE? Teria representantes nas instituições europeias? Teria obrigações financeiras semelhantes às dos Estados-membros?


Neste momento, essas respostas ainda não estão estabelecidas.

Especialistas em direito europeu destacam que os tratados atuais não estabelecem uma categoria chamada “membro associado”. Existem, contudo, diferentes formas de associação e acordos de cooperação que podem servir de base para criar uma relação mais próxima.


Isso significa que a proposta anunciada por von der Leyen é, por enquanto, um objetivo político e diplomático, e não uma nova categoria já disponível no direito europeu.


E o que diz o Canadá?


Mark Carney recebeu positivamente a aproximação europeia.

Ao discursar no Parlamento Europeu, o primeiro-ministro canadense defendeu uma cooperação mais profunda com a Europa e afirmou que Canadá e UE podem reforçar a sua autonomia estratégica através de uma colaboração mais ampla.


Entre as áreas apontadas por Carney estão minerais críticos, capacidade industrial de defesa, inteligência artificial, energia, espaço, pagamentos e comércio digital. O governo canadense também defendeu maior facilidade para jovens dos dois lados trabalharem e estudarem no outro continente.


Carney, contudo, colocou ênfase na preservação da soberania canadense. Segundo informações divulgadas pela Euronews, o primeiro-ministro canadense preferiu utilizar a expressão “Aliança para o Futuro”, deixando claro que o nome definitivo do modelo ainda está em discussão.


A relação com os Estados Unidos


A aproximação entre Canadá e União Europeia também acontece num contexto de tensão comercial entre Ottawa e Washington.


O Canadá mantém historicamente uma relação econômica muito próxima com os Estados Unidos, mas o governo de Carney tem procurado diversificar as relações comerciais do país.


As tensões comerciais com a administração norte-americana aumentaram em 2026, enquanto o Canadá passou a procurar novas oportunidades de comércio e cooperação internacional.


A aproximação com a UE, portanto, pode ser vista também como parte de uma estratégia canadense de diversificação.


A Reuters relata que a proposta europeia surgiu num período marcado por pressões comerciais dos Estados Unidos e por preocupações europeias relacionadas com a competição econômica e estratégica da China.

O presidente norte-americano Donald Trump também reagiu à possibilidade de uma aproximação mais profunda entre Canadá e União Europeia e afirmou que poderia adotar medidas comerciais caso considerasse a iniciativa hostil.


O que pode mudar para os europeus?


Para os cidadãos da UE, não haverá uma alteração imediata.

A proposta ainda precisa de ser transformada num modelo concreto e negociada entre os países do bloco e o Canadá.


Se as negociações avançarem, os efeitos dependerão do conteúdo final do acordo. Poderão envolver comércio, investimentos, investigação, tecnologia, defesa, energia, mobilidade e outros setores.

A Comissão Europeia já indicou que pretende trabalhar numa relação que ultrapasse o comércio tradicional e inclua uma dimensão de segurança econômica e estratégica.


E para Portugal?


Portugal, como Estado-membro da União Europeia e país com fortes relações históricas e econômicas com o Canadá, poderá acompanhar de perto esta evolução.

A existência de uma comunidade portuguesa significativa no Canadá também acrescenta uma dimensão humana à relação bilateral.


Além disso, uma maior integração econômica entre UE e Canadá poderá criar novas oportunidades para empresas portuguesas em áreas como tecnologia, energia, indústria, serviços e comércio internacional, dependendo dos termos que forem negociados.


No entanto, ainda é prematuro falar em benefícios concretos. O modelo de associação não está definido e qualquer alteração relevante nas condições comerciais ou de mobilidade dependerá de futuros acordos.


Uma mudança que ainda está no início


O anúncio de Ursula von der Leyen representa uma mudança importante no discurso europeu sobre as suas relações externas, mas ainda existe uma grande distância entre a proposta e a sua concretização.

A União Europeia nunca teve formalmente um “membro associado” com as características agora discutidas para o Canadá.


Por isso, os próximos passos serão fundamentais: será necessário definir o conteúdo da associação, estabelecer a sua base jurídica e obter o apoio necessário dos Estados-membros.

O Canadá, entretanto, já sinalizou que pretende aprofundar a relação com a Europa.


Se o modelo avançar, poderá surgir uma nova camada entre a tradicional relação com países terceiros e a adesão plena à União Europeia — uma espécie de parceria estratégica aprofundada para países que pretendem aproximar-se do bloco sem se tornarem membros.


Por enquanto, o Canadá é apenas o primeiro país convidado a explorar esse caminho. O verdadeiro impacto da proposta dependerá das negociações que agora começam.

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